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Vol. 17 No. 1 (2026): Revista Vianna Sapiens - Janeiro a Junho de 2026

O CONHECIMENTO NA TRAMA DO COTIDIANO: LEGADOS, REDES E A DIGNIDADE DO FAZER

ENTRE O LEGADO E O FUTURO

Assumo a posição de Editor-Chefe da Vianna Sapiens com a certeza de que uma revista científica é, antes de tudo, uma construção coletiva e uma ponte entre gerações. Não a vejo como mera formalidade editorial, mas como um espaço de encontro entre o rigor do pensamento acadêmico e as pulsações da vida social. Um periódico precisa estar atento ao seu tempo, às suas transformações e, sobretudo, às tramas do cotidiano em que estruturas de poder, relações sociais e experiências humanas ganham forma.

É nesse território, onde o conhecimento encontra a realidade, que renovamos o compromisso da Vianna Sapiens com uma ciência que não se encerra em si mesma. Uma ciência que investiga, questiona e, quando necessário, incomoda. Que não abandona o rigor, mas também não perde de vista a realidade concreta sobre a qual se debruça.

Neste rito de passagem, meu primeiro gesto é de profunda reverência à Professora Doutora Rachel Zacarias. Ao celebrarmos seus 45 anos de magistério e os 15 anos da fundação desta revista, não celebramos apenas datas. Celebramos uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, pela dedicação à pesquisa e, sobretudo, pela humanidade colocada em cada etapa deste projeto.

Rachel não construiu apenas um repositório de artigos. Cultivou um espaço no qual o conhecimento pudesse circular, encontrar leitores e produzir novos encontros. Receber esse legado significa, para mim, assumir a responsabilidade de preservar aquilo que foi construído e, ao mesmo tempo, permitir que a revista continue encontrando novos caminhos.

A REDE DE APOIO: AGRADECIMENTOS E COLABORAÇÃO

Uma revista científica não existe pelo trabalho de uma única pessoa. Ela é resultado de uma rede. Autores, pareceristas, leitores, editores e colaboradores dão forma a um processo que, muitas vezes, permanece invisível para quem recebe o resultado final. Cada artigo publicado carrega consigo esse trabalho coletivo.

Por isso, registro meu agradecimento especial à nossa Secretária Executiva, Diana Marcatti, cuja competência, disposição e atenção cotidiana são fundamentais para que essa engrenagem funcione. Estendo esse reconhecimento aos pareceristas ad hoc, autores e leitores da Vianna Sapiens, que constituem a comunidade científica em torno da qual este periódico se sustenta.

Há uma dimensão silenciosa nesse trabalho que merece ser reconhecida. Uma revisão cuidadosa, uma pesquisa bem construída, uma leitura atenta ou uma contribuição crítica são gestos que, somados, produzem aquilo que chamamos de conhecimento científico. É dessa colaboração que nasce a qualidade que pretendemos entregar ao leitor.

ADMINISTRAÇÃO: TRABALHO, CLIMA E ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO

Os estudos reunidos nesta edição mostram que falar de Administração é também falar de pessoas, territórios e condições concretas de trabalho. As planilhas, os indicadores e os modelos de gestão não existem fora da realidade social. Há sempre um lugar, uma experiência humana e relações de poder por trás deles.

A inovação popular em Juiz de Fora, analisada a partir da Lei nº 14.746/2023, e a discussão sobre o papel democratizante dos Centros de Inovação e Pesquisa (CIPs) mostram como políticas e estruturas institucionais podem ampliar o acesso à produção de conhecimento e à inovação. Em outra direção, a pesquisa realizada em Bom Jesus da Penha (MG) chama atenção para a influência do clima organizacional sobre a saúde e a produtividade nas pequenas empresas.

Também encontramos os desafios normativos relacionados à implantação do Parque Tecnológico BR-040 e o diálogo entre a teoria da Tríplice Hélice e as barreiras práticas colocadas pela regulação nacional. São questões distintas, mas que convergem em um ponto: inovação e desenvolvimento não acontecem em abstrato. Dependem de instituições, pessoas, regras e condições materiais.

É, contudo, no estudo de Fonseca et al. sobre a precarização das Auxiliares de Serviços da Educação Básica (ASBs) em Minas Gerais que essa dimensão social do trabalho aparece de maneira particularmente contundente. Os dados revelam que 99,7% dos 38.248 profissionais atuam sob vínculos temporários, enquanto 90,26% recebem apenas o piso de R$ 1.466,00.

Esses números não são apenas indicadores. Eles revelam uma estrutura de trabalho marcada pela precariedade e pela invisibilidade. A pesquisa nos conduz a uma questão que ultrapassa os limites da gestão: por que determinadas atividades permanecem socialmente desvalorizadas mesmo quando são indispensáveis ao funcionamento das instituições?

A resposta passa por uma herança patriarcal e escravocrata que historicamente associou o trabalho de limpeza, cuidado e alimentação às mulheres e ao espaço doméstico. Quando essa lógica atravessa o mundo do trabalho, transforma uma atividade profissional indispensável em algo naturalizado, pouco reconhecido e facilmente substituível. A pesquisa, nesse sentido, devolve visibilidade às mãos que sustentam o cotidiano escolar e nos lembra que discutir trabalho é também discutir dignidade.

A edição se completa com a análise da variação do custo da cesta básica em Caçador (SC). A escolha do tema pode parecer distante dos debates anteriores, mas recoloca uma questão elementar: não há desenvolvimento que possa ser pensado sem considerar as condições materiais de existência. A segurança alimentar continua sendo uma das faces mais concretas da dignidade.

DIREITO: DIGNIDADE, TECNOLOGIA E ESPAÇOS DEMOCRÁTICOS

O Direito também se transforma à medida que se transformam as relações sociais. Entre algoritmos, novas formas de trabalho, conflitos familiares, direitos linguísticos, meio ambiente e violência, o desafio jurídico contemporâneo parece ser justamente não perder de vista aquilo que está no centro de todas essas disputas: a dignidade humana.

Os estudos desta edição percorrem algumas dessas fronteiras. A comparação entre a regulação da gestão algorítmica no Brasil e na União Europeia coloca em questão os limites entre eficiência, controle e proteção do trabalhador. No teletrabalho do INSS, analisado a partir da Portaria nº 1.800/2024, a tecnologia aparece novamente como promessa de modernização, mas também como elemento capaz de redefinir os limites da produtividade institucional.

A autonomia e a liberdade aparecem em diferentes pesquisas. A responsabilidade médica diante da objeção de consciência, discutida a partir do Tema 1069 do STF, recoloca o debate sobre os limites da atuação profissional e da autonomia. O reconhecimento dos Direitos Linguísticos como Direitos Humanos amplia a própria compreensão sobre cidadania e pertencimento. Já o estudo sobre o uso indevido da Lei de Alienação Parental como instrumento de conflito revela como mecanismos jurídicos podem, em determinadas circunstâncias, ser deslocados de sua finalidade e utilizados contra aqueles que deveriam proteger.

Em outra perspectiva, o esporte aparece como espaço de inclusão, enquanto a análise da “geografia do conflito” em Juiz de Fora e Ubá nos aproxima de uma realidade menos abstrata: a da violência letal que atravessa nossos territórios e marca de maneira desigual a experiência de cidadania.

Também estão presentes nesta edição questões relacionadas ao ITCMD e às Zonas de Amortecimento em Minas Gerais. Em ambos os casos, o Direito se encontra diante de tensões que não são exclusivamente normativas. De um lado, a circulação de patrimônio e a organização econômica; de outro, a necessidade de preservar espaços ambientais que funcionam como verdadeiros limites à expansão humana.

São pesquisas que fazem o Direito sair de seus próprios limites. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças: na capacidade de dialogar com a economia, a tecnologia, a política, o meio ambiente e as relações sociais sem perder sua especificidade.

O COMPROMISSO COM A VANGUARDA INTERDISCIPLINAR

Esta nova etapa da Vianna Sapiens parte de um legado e olha para o futuro. Preservar a história da revista não significa mantê-la imóvel. Ao contrário: significa reconhecer aquilo que foi construído para que possamos avançar.

Nosso compromisso permanece sendo com o rigor científico, mas com um rigor que não se fecha em uma torre de marfim. Queremos uma revista aberta ao diálogo interdisciplinar, às novas perguntas e às transformações que atravessam a sociedade. Uma revista capaz de acolher diferentes campos do conhecimento sem perder de vista a responsabilidade que acompanha a produção científica.

O conhecimento ganha sentido quando encontra o mundo. Quando deixa as páginas e retorna à sociedade como pergunta, reflexão, crítica ou possibilidade de transformação.

Convido você, leitor, a percorrer estas páginas não como quem cumpre um protocolo acadêmico, mas como quem se dispõe a olhar com mais atenção para aquilo que, muitas vezes, está diante de nós e permanece invisível. Que este encontro com o conhecimento seja também um encontro com o nosso próprio tempo.

E que a Vianna Sapiens, ao completar 15 anos, continue sendo esse espaço de encontro: entre gerações, entre áreas do saber, entre pesquisadores e leitores, entre a instituição e a sociedade.

Professor Doutor Andrez Wescley Machado

Editor-Chefe

Published: 2026-09-04

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